A Monja Tibetana - Cap.9 'Ouvindo as Estrelas'

A Monja Tibetana -  Cap.9 'Ouvindo as Estrelas'

O equilíbrio‘, ‘ O segredo da subjetividade’ , ‘O processo da informação ao saber’, ‘Orientalizando o Ocidente e ocidentalizando o Oriente’ e O conhecimento tem vida própria’ são alguns dos temas do capítulo ‘A Monja Tibetana’ do livro Ouvindo as Estrelas, hoje publicado aqui no site Intuicao.com – Para sua apreciação. Confira!

Livro Ferhélin, Ouvindo as Estrelas

Há muitas pessoas no planeta
e diversos caminhos.

No refeitório, Ferhélin e a Menina Mestra encontraram uma figura bem peculiar. Uma mulher, à primeira vista, asiática, que aparentava ser uma monja e tomava seu chá em silêncio. 

Totalmente careca, usando vestes laranja avermelhado, lembrando os monges tibetanos, chamou sua atenção de imediato.

Sentaram-se bem próximo e fizeram a saudação mútua de bom dia.

Uma conexão estava se estabelecendo entre aquelas mulheres: uma brasileira, uma suíça e uma tibetana. Ferhélin a identificaria como ‘Monja Tibetana‘.

Ferhélin permaneceria nas Rochosas, enquanto a Menina Mestra retornaria para Victoria, cidade em que estava estudando, no dia seguinte. Elas faziam planos para o último dia em que estariam juntas. 

A Monja Tibetana, falando um inglês bem claro, dirigiu-se às duas e perguntou se conheciam o Lago Louise. Elas descreveram sua impressão do lago, local que tinha proporcionado ótimos momentos a ambas e, após trocarem ideias, ofereceram-se para acompanhá-la. Visitariam o Lago Louise novamente, agora na companhia de Monja Tibetana.

Após algum tempo, as três mulheres estavam à beira do lago e começaram a ter uma conversa muito especial.

Ferhélin, ao observar uma cena envolvendo pessoas próximas a elas, comentou:

— Uma coisa que não consigo entender é como as pessoas, tendo informação e conhecimento do que lhes causa problemas, ainda assim entram na rotina de ignorar o que prejudica suas vidas.

A Menina Mestra permaneceu em silêncio e olhou para a Monja Tibetana. Esta sorriu e começou a falar suavemente:

— Há um processo de magia do conhecimento que acontece como se fosse um ritual A jornada entre o conhecimento e seu fruto funciona de acordo com um fluxo. Imagine um fluxo em uma espiral. O início aparenta ser um fluxo linear, mas já é parte da espiral, que começa com a informação, que as pessoas obtêm ou elaboram em algum nível, superficial ou mais aprofundado. Depois, começam a transformá-las em conhecimento. A partir disso, começam a compreender a energia decorrente da informação.

É uma forma de energia que sempre tem algum significado, mas conforme a pessoa faz uso daquela energia; de início apenas informação, então começa a haver uma mudança de estado e aquela energia começa a se se transformar em conhecimento.

Ferhélin e a Menina Mestra acompanhavam atentamente as palavras da monja que continuou a explanar sua concepção de como se dava o fluxo do conhecimento:

— A maioria das pessoas fica neste estado do conhecimento e passa a estudar e detalhar particularidades. Neste estágio muitos permanecem, não dando sequência ao fluxo daquela energia. Até aí, o processo é possível no plano mental.

No plano mental, o próximo passo, ainda experimentado por poucos, é a tradução, não apenas em um raciocínio lógico daquilo que a pessoa “entende”, mas em uma linguagem própria, ainda racional, mas algo mais personalizado e mais ‘vivo’ dentro da pessoa.

É a digestão do conhecimento e sua transformação em outro estado. Nesse processo há mais que reflexão. Há o envolvimento de toda a energia e essência do conhecimento. Para esse estado ser atingido, a abertura do coração é fundamental.

É quando aquela energia e sua essência fluem pelo coração que o conhecimento transcende o nível racional.

Naquele momento, Ferhélin e a Menina Mestra trocaram um olhar. Era um olhar de cumplicidade. A reafirmação da linguagem do coração surgia mais uma vez.

— A partir deste ponto não será mais possível manter apenas a mente como guia. É o estado em que a percepção entra em cena, o estágio em que o conhecimento toma vida própria, com manifestações espontâneas e fluídas — continuou a Monja Tibetana.

Ferhélin lembrou-se de Einstein e seus flashes intuitivos, que o conduziram à Teoria da Relatividade, e de Heizemberg9 e sua percepção que deu origem à teoria da incerteza — teorias fundamentais para o avanço científico do século XX.

A monja prosseguiu:

— Quando o ser humano começa, mais e mais, a usar a percepção, os canais da criatividade e da intuição começam a se abrir. A intuição é uma propriedade vital, assim como a razão que, ao ser utilizada de maneira mais completa, dá acesso à próxima etapa da espiral, atingida por poucos, que é o saber.

A sabedoria transcende o nível do raciocínio, transcende os níveis da informação, do conhecimento e do entendimento e engloba uma conjunção de atributos relacionados tanto à mente, quanto à percepção e à intuição.

Nada no universo perdura para sempre, e mesmo o conhecimento sofre transformações, que se dão ao longo do tempo. Se prestamos atenção tudo se transforma continuamente. Em verdade, todos os fenômenos são impermanentes e, mesmo com o conhecimento isso acontece. Já a sabedoria, esta lida com a essência, que é fluída e sutil e transcende a ‘forma’ e ‘conceituações’ com que o ‘conhecimento‘ é apresentado.

Quando há sabedoria, um outro nível começa a ser experimentado: o da consciência. O processo consciente envolve todos os níveis que manifestamos: desde o físico, passando pelo mental intelectual e emocional para chegar ao espiritual.

Ferhélin e a Menina Mestra pareciam encantadas com aquela mulher jovial, sábia e única, usando seus trajes budistas. Era mais um presente daquela jornada luminosa.

— Quer dizer que a informação sofre uma espécie de transfusão energética, experimenta um tipo de imersão em um nível bem mais abrangente e profundo, chamado sabedoria, que se manifesta em nossa consciência? — perguntou a Menina Mestra.

— Ser consciente é da natureza do ser humano. Muitos males que a humanidade experimenta se baseiam na ignorância e na ausência da prática desta natureza.

— Como alguém pode ignorar algo que é a da sua natureza? — indagou Ferhélin.

— O que você acha da quebra do ciclo que mencionei há pouco?  O que acontece no mundo de hoje com as pessoas recebendo mais e mais informações, estudando-as e começando a entender parte delas? — perguntou a Monja Tibetana.

— Bem, parece-me que essas pessoas passam a ser valorizadas e reconhecidas por serem conhecedoras de determinadas áreas. O mundo as valoriza pelo que conhecem — disse Ferhélin.

A Monja Tibetana, que com elas interagia com um ar de proximidade e alegria e que se manteve desta forma durante todo o passeio, comentou:

— Você usou uma palavra-chave na vida humana: valorização. Atribuir e agregar valores formam o princípio que guia todas as ações. Penso que a humanidade perdeu a capacidade sutil de perceber o sentido real das informações porque ou as recebe em excesso e nem percebe o valor de algumas delas, ou então, valoriza-as excessivamente. Este detalhe – da perda daquela capacidade sutil, quebrou a magia na espiral que faz a transposição da informação para o saber e acabou levando o ser humano à inconsciência nas suas atitudes.

O processo de renovar informações, com novas roupagens, as mais diferenciadas possíveis, tornou-se o ponto de convergência a ser valorizado. Como e quais informações, como dar e descobrir informações inéditas, acabaram se transformando nos focos que quebraram o elo da sequência do conhecimento em direção à sabedoria. Este processo valoriza o “especialista”, incentivando a atualização das informações, não por necessidade, mas para alimentar um ciclo deformado que valoriza apenas a informação pela informação.

A sociedade, sem identidade e sem propósitos claros, reforça a “virtualização” da informação e ainda valoriza isso, deixando de lado aspectos que – se considerados, valorizariam a ética e a sabedoria. E a valorização dessa virtualização provoca o fortalecimento de inverdades e condutas impróprias.

— O mais grave nisso tudo é a perda de consciência — afirmou a Menina Mestra.

— Sim, pois sem consciência não há sabedoria, e isto provoca a desarmonia — sintetizou a Monja Tibetana.

Aquela mulher tibetana, com suas vestes avermelhadas e segurando um tipo de rosário, em muito estava agradando as outras duas. 

Elas continuavam a caminhada. Haviam optado por seguir uma trilha que as conduziria à montanha.

— Como poderia ser retomado este ciclo para a manifestação da sabedoria e para a elevação da consciência? —indagou Ferhélin.

A Monja Tibetana, iluminada pelo sol que brilhava no céu e fazia resplandecer sua vivacidade interior, através do seu olhar e do brilho de sua cabeça sem cabelos, disse:

— Há muitas pessoas no planeta e vários caminhos, não um único. Quando eu era ainda uma garotinha, um Lama disse à minha mãe que eu deveria me preparar para seguir o caminho espiritual e me transformar em uma monja. Anos depois, quando eu ainda era uma noviça, um livro10 muito especial chegou às minhas mãos. Continha palestras e conferências enfatizando como há poucos autores do extremo oriente que expressam suas opiniões sobre a relação “Oriente e Ocidente”. O conteúdo daquelas idéias transformaram-se em sementes que desabrocharam na minha caminhada e hoje fazem parte do meu viver. Passo uma temporada no oriente e procuro traduzir os sentimentos ocidentais para a visão oriental e, quando estou no ocidente, faço o movimento contrário. As escolhas de um oriental geralmente diferem das do ocidental. Há alguns parâmetros que distinguem a forma de ver, de entender e de agir. O ocidental tem o hábito de tudo intelectualizar, questionar e entender. A eloqüência oral é intensamente valorizada no mundo ocidental. No oriental, os hábitos são diferentes, as atitudes são mais silenciosas.

Ferhélin e a Menina Mestra ouviam atentas as palavras de Monja Tibetana. 

— Dentro da visão oriental, a postura silenciosa e observadora e a sensibilidade do espírito fazem parte do caminho natural para as buscas. O ocidental procura verbalizar tudo. O questionamento é parte do seu modo de viver e acaba direcionando suas escolhas por um prisma de individualismo. O oriental aceita o que vê e procura contemplar o todo. O ocidental tem como método a objetividade, despreza o valor da subjetividade, que é rica e inspiradora, enquanto a subjetividade é vista com olhos de desconfiança.

— Qual dos dois está certo? — perguntou Ferhélin.

— Não sei dizer se há um certo e outro errado. Entendo que cada um segue a sua natureza. Sinto que agregar o “outro lado” seria saudável para ambos. Acredito que os ocidentais precisam perceber que a objetividade e o individualismo, sem levar em consideração o todo e suas inter-relações, podem ser danosos à natureza e ao ser humano. É fundamental que haja uma abertura à integração e à percepção do todo.

A Monja Tibetana falava com profundo respeito e amor e compartilhava estes sentimentos com as duas amigas:

— A objetividade pode ser muito enganosa, pois fragmenta o que é grandioso e deixa de lado aspectos que podem ser altamente significativos.

— Como vê este aspecto em relação ao ocidental? — perguntou Ferhélin.

— O ocidental, nos relacionamentos, é preparado para convencer o outro — disse a Monja Tibetana.

Ferhélin completou:

— É comum o ocidental advogar e tentar impor o que quer. 

— Daí a importância da objetividade e da capacidade de fazer indagações — disse a Menina Mestra.

— Como obter o equilíbrio entre a objetividade e a subjetividade? — indagou Ferhélin.

A monja começou a falar:

— Há um método para estabelecer este equilíbrio entre qualidades mais subjetivas, comuns aos orientais, e as mais objetivas, próprias dos ocidentais. Alguns requisitos são básicos:

— O primeiro é o relaxamento. A sugestão é procurar um ambiente que favoreça este experimento, de preferência um ambiente silencioso ou com sons agradáveis. Sons de água, pássaros ou músicas suaves e aromas agradáveis são favoráveis ao relaxamento.

O segundo, a experimentação. Escolha uma frase ou um parágrafo que a agrade e reflita a respeito, mas procure não intelectualizar muito. Em um estado interior calmo e harmonioso, procure experimentar a frase que escolheu. Experimente sua energia. Tenha paciência, é importante fazer esta experiência sem pressa. Não se preocupe com outras questões. Dê vazão à energia desse conhecimento para se expressar em sua experiência.

O terceiro requisito é o desapego. Medite por um tempo e esqueça a informação anterior, sem se preocupar mais com a ela, apenas meditando um pouco.

O quarto requisito é a constância. Estabeleça o hábito de exercitá-la diariamente.

Complementando, ela explicou:

— Esta prática envolve um quinto aspecto, que também é muito importante: antes de dormir, lembre-se das experiências do dia. Como complemento à experiência, você pode escolher uma frase, uma virtude ou um pensamento para vivenciar naqueles momentos pré-sono. Este exercício pode ter variações, use a sua imaginação. Estabeleça seu modo de fazê-lo: você pode usar imagens em vez de frases, ou pode juntar imagens a frases e experimentá-las internamente. Pode agregar movimentos e ritmos. Fica a seu critério.

— Por que você acha que isto poderia funcionar com os ocidentais? — questionou Ferhélin.

— O ocidental está muito acostumado a intelectualizar. Se ele seguir este caminho, adeus experiência. Proponho aprender a refletir, sem ser analítico e conceitual. O terceiro passo, o desapego, visa a integração e a percepção do todo.

Em algum nível, percebe-se que não é o objetivo final, mas um meio para encontrar algo mais profundo. Seu objetivo, não é reforçar o objetivo final, mas proporcionar a chance de perceber que os meios têm importância muito grande nas nossas vidas.

O quarto passo – a constância – é um desafio ao ocidental. É muito importante ser constante e manter a freqüência na prática dos exercícios e ser persistente.

Ferhélin e a Menina Mestra apreciavam a força das palavras da monja, que estava bem à vontade com as duas.

Ferhélin, então, perguntou:

— Na sua visão, há alguma atitude em especial que tem impedido o desabrochar da intuição?

A Monja Tibetana gesticulava suavemente enquanto falava:

— Sim, e uma delas é a falta de equilíbrio nas posturas, desde os pensamentos até as ações. Você é especialista em Física e entende de equilíbrio melhor que eu. Mas acredito que, quando nos situamos em um dos extremos, somos conduzidos à situação de desequilíbrio.

— Há alguns aspectos básicos — continuou a monja — Um deles é a visão objetiva, muito importante na ação. Mas é a visão subjetiva que sustenta o espírito com que a ação é desempenhada. Planejar demais é outro hábito que bloqueia a intuição. Querer planejar relações com a vida pode ser necessário, mas também temos que manifestar o lado receptivo. Ter uma mente mais acolhedora pode nos ajudar a perceber sinais que costumamos ignorar.

Algumas vezes, a vida encontra canais de comunicação conosco, aos quais não estamos acostumados. A generalização bloqueia o entendimento da linguagem que os detalhes usam. Ser sistemático demais é outro dos extremos incorporados à vida cotidiana. Ela não segue uma ordenação artificial.

A tendência de reduzir a diversidade humana a determinados padrões conduz ao desmantelamento de talentos, de tempo e de energia. A visão generalista e analítica fortalece os problemas, sem mostrar soluções ou saídas. Acabam apresentando meios de conviver com eles, mas não como solucioná-los. Com o tempo, o problema é incorporado pelas pessoas.

A Mestra Tibetana concluiu acrescentando: 

— O que se observa é que, com o tempo, a relação com o conhecimento não é mais de ansiedade nem de domínio. Esta relação existirá não apenas com o objetivo de entendê-lo, mas também de experimentá-lo.

— Você tem proposto estas práticas em suas atividades? — perguntou Ferhélin.

— Sim, em encontros, palestras ou workshops, e a maioria tem se mostrado bastante receptiva. Isto auxilia o fortalecimento do hábito de ouvir e de estabelecer conexão com o fluxo vital contido no conhecimento. As pessoas acabam por estabelecer uma conexão com o real propósito do conhecimento. 

Ferhélin olhou-a com simpatia e sorriu. Sentia-se afortunada e agradecida pela vida.

A Menina Mestra parecia mergulhada em um mundo de luz, com a sua prática natural de sorrir com os olhos. 

A Monja Tibetana estava fazendo seu papel, em um dia comum para ela, compartilhando simplicidade, sabedoria e felicidade.

Elas descansaram por algum tempo, observando a natureza em silêncio. Depois retornaram ao alojamento para descansar.

Na manhã seguinte, elas se olharam com carinho e se abraçaram. Era a despedida. A Monja Tibetana ia partir. Talvez nunca mais se vissem, quem sabe?

Ferhélin continuaria sua jornada pelas Rochosas, retornando a Banff. A Menina Mestra seguiria para Victoria, a bela cidade que Ferhélin visitara no início de sua viagem.  

A Monja Tibetana

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ENCONTRANDO O SER INTERGALÁCTICO

Livro Ferhélin, Ouvindo as Estrelas

O livro OUVINDO AS ESTRELAS descreve encontros de uma jovem cientista (Ferhélin) – personagem central do livro, durante sua jornada em terras canadenses. Grande parte do livro tem como cenário as Rochosas Canadenses, com seus cenários únicos e encantadores, nos quais a magia dos cenários funde-se com perspectivas e revelações, aprendizagens e entendimentos que proporcionam a Ferhélin experiências que a ajudam a transcender sua forma de pensar e enxergar o mundo e as pessoas, as ciências e a espiritualidade. Experiências essas que são compartilhadas no livro, o que os leitores poderão atestar no decorrer da sua leitura, conforme os encontros são relatados.

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Imagens (exceto as da capa do livro): Banco de dados Pixabay